segunda-feira, 1 de novembro de 2010

De casa



Por que ilustro? Às vezes por achar mais simples, às vezes por estilo, às vezes só por exercício. Na tentativa de me fazer entender, na ânsia de traduzir os pensamentos fervilhantes, na angústia de te autorizar a conhecer o que sinto, em uma aflição que predomina e cria novas realidades na minha mente. Segue a mais corajosa das minhas parábolas.


Entrei porque vi uma fresta. Sou jornalista. Sou curiosa. A tua falta de dose me excita a saber mais. Não conhecia eu o tamanho da minha oportunidade de espreita. Se era um “olho mágico” a me admirar ou mesmo apenas a me vigiar, cedeu espaço. Justo a mim. Que não me contenho ante a nenhuma entrada. Que pulo o muro quando preciso – mas não desta vez.
O “olho mágico” que piscou pra mim me atraiu. Sem volta. Agora era eu que o encarava secamente, mas segura do que queria desvendar. Fosse uma persiana na janela, fosse uma farpa ao acaso retirada do portão da tua casa, só o que eu sei é que me permitiste.
No impulso de espiar sem ser notada – não era invasão o que fazia -, limpei os pés no tapete de boas-vindas e também me permiti. No campo das autorizações, estamos quites.
Dali para os detalhes eram passos. Não eram. Aquela casa parecia um armário sem fim. Gavetas, portas, caixas, tudo guardado. Escondido. Camuflado. Mas, depois de dentro, não tem conversa. Milimetricamente eu te sondei. Te revistei. Percebi. Coletei. Dados, indícios, associações. Achei tanto o lixo por baixo do tapete quanto as jóias no cofre, atrás do espelho. Espelho esse viciado. Te refletia como tu desejavas, mas a imagem era falsa. Pior: a real era ainda mais atraente.
E nas roupas marcadas por teu suor, nos perfumes que exalavam quem tu pensavas ser, havia somente uma profundidade rasa. Era o teu desejo de ser prático e a tua complexidade que lutavam em cada utensílio no quarto e em cada presente na prateleira. Tua mania de tecnologia e teu afã por malhação não foram capazes de aliar o conforto ao exercício. E contradisseste de novo.
Sinto-me sutil. Ao mesmo tempo, ardil. Na verdade, o peso do meu corpo não fez diferença quando optaste por me notar. Perceberias mesmo sem um movimento sequer, sem um barulhinho que fosse. Vestígios ao longo do tempo em que estive por ali deixei vários. Pistas que nunca pediste. De repente, me achaste.
O tempo passou. E as aulas me serviram. Nos encontramos no quarto. E a tua surpresa foi eu estar deitada. Incólume. Calculando qual lado do espelho dizia a verdade. Já que estamos aqui, deixa-me recostar no teu peito. E já resolvemos o que nos é de direito.
Durmo e me sinto viva. O teu lado – qualquer que seja ele – me desmonta e remonta. Hora de voltar ao café. Não me dispus a preparar a comida. Não sei até que ponto sou de casa ou sou visita. Sento à mesa. Enfim, tirar as cartas das mãos e das mangas. Hora de descê-las à mesa.
Me inquires sobre como estava lá. Desde quando, quem me deixou chegar. E ficar. Tu sabes que foste tu, eu penso. Mas não ouso falar. Balbucio. E agora que estou, quero estar sempre. Fazer o macarrão daquele sábado, levar a pipoca e a coca light pro filme de mais tarde, ouvir nossas canções e cantá-las junto. Essa é a minha vontade. Mas se tu disseres que minha presença é escamoteada, que eu roubei a chave ou ainda que queres que eu vá embora, tranquilo. Levaria comigo lembranças e certezas e as poria bem guardadas. Seria a vez de tirar o carro de onde parei e seguir em frente. Melhor seria aprender a estacionar o carro na garagem.

Um comentário:

  1. Segundo Gabito Nunes: "O amor não pode ser institucionalizado, o amor é um movimento, um segundo, um olhar. O amor é o que acontece quando ninguém está nos olhando. (...) A amizade, o companheirismo, a cumplicidade são sentimentos macro, o amor é detalhe, é gesto, uma ação que acontece numa fração de segundo. É difícil captá-lo, mas as pessoas insistem em tentar dimensionar, categorizar, controlar."

    A gente vive buscando respostas, tentando entender o que sentimos, mas quando a gente entende já não é mais o mesmo, quando a gente consegue definir, parece que já não é o mesmo, ou perdeu o sentido, ou a graça, não é mais, simplesmente.
    Outro dia ouvi: "não sei explicar o que eu sinto exatamente, e essa é a graça, é o bonito disso tudo. Não sei mensurar..." E acho q é isso!
    Não existe 'por quê', não existe motivo, mas existe o sentimento. E se é amor, não tem fim (ou tem, entre aspas), mas a gente nunca vai conseguir explicar.
    E é por isso que tu usa as 'parábolas', as metáforas que caem tão bem, como luvas, no que se sente.
    E é muita coragem, acredite...

    Tá (finalizando), eu te amo, e continua escrevendo, tá?!
    Beijo

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