Tudo é uma questão de tempo, como diriam os sábios. Onde e a quem aplicá-lo. Como dedicá-lo. Em que investi-lo. Quando começar, quando terminar. Se tempo é dinheiro, atribuem mesmo a ele valor. Um valor inestimável, eu diria. A vida corre e os prazos que fixamos também. As metas, os meios para chegarmos a elas, enfim, tudo prescinde de tempo. Além de valioso, ele serve como termômetro.
Se queremos que uma dor passe, é ele o nosso herói. Desejamos que corra ao nosso encontro. Se esperamos um atendimento de emergência numa fila de hospital, vira vilão, quando o perdemos sem tê-lo. Perder sem ter é aliás um sofrimento singular. É o engano do abraço de olhos fechados. A segurança de uma presença ausente, quando de fato o calor da entrega completa resume-se a venda que cedo ou tarde cairá de nossos olhos mostrando nossa real distância. E o que parecia enlaçar-se em nós agora escorre pelos dedos.
Amar não se aprende. Se vive. Todo dia. É um cotidiano de rendição e redenção. Naturais e esforçadas. Atenção. Cuidado. Carinho. Preocupação. Intensidade. Quando o coração se dispõe a receber, ele já passou pelas preliminares. Experimentou o bom gosto da entrega.
Meu modus operandi só diz ao meu respeito. Não ao do outro. Quando nos conectamos a alguém são as lentes dele que devemos pedir emprestadas. É por aquele olhar, ao qual queremos sempre brilhante, que devemos enxergar. Ao menos sobre o que ele vê colorido ou preto e branco no amor. No amor que ele vislumbrou para si.
Não se trata de mimo. Apesar de ser a mais fresca da atualidade, eu me viro. Não verto
em cobranças e exigências. Decidi me abster delas. E guardar pra mim. Talvez essa seja
uma das minhas primeiras cobranças hoje. E o lembrete colado em minha frente - no PC
- alerta pra minha [o]missão: não me esquecer de mim.
O bolo que se come só, procurando ao redor em busca de quem divida o olhar, o comentário e o garfo. A festa não é a mesma sem a mão dada por baixo da mesa ou a pausa para fotos conjugada. Os Lençóis na viagem do final de semana parecem mais enrolados do que de costume. O que eram barreiras pequenas agora se agigantam, crescem. A diversão some. E a beleza se restringe. A natureza continua lá, colorida e esplêndida, mas o barulho das risadas e o cheiro do meu perfume são abafados pela água batendo na lancha e o odor característico da mistura de manguezal.
Na solidão, apenas as dúvidas nos acompanham. Elas são fieis, não nos deixam. Esvaem-se os sonhos conjuntos, os sorrisos sem motivo e os planos mirabolantes de construir tudo. O castelo à beira-mar cercado de praticidade vai embora na mesma velocidade em que a maré sobe e desce para derrubá-lo. Na verdade, uma casa realmente segura precisa de fundamentos. Pressupõe trabalho e esforço. Pra ficar da maneira que o projetista idealizou, conforme o arquiteto planejou.
Sei que a expectativa sempre me consumiu. Assumo irrevogavelmente a necessidade de ser ouvida, amparada e protegida. Bem assim, como toda mulher. Não creio que as minhas lentes estivessem embaçadas quando te vi capaz de fazê-lo por mim. De ter-me em teus braços e me levar a acreditar que tudo iria bem. Esperar de ti nunca foi ilusão. Foi apenas fazer real o que sempre foi potencial. O erro foi ver além. Ver o que ficou oculto pra ti.
